O câncer colorretal está entre os tumores mais comuns no mundo, mas ainda é cercado por tabus, vergonha e desinformação. Durante o Março Azul-Marinho, campanha dedicada à conscientização sobre a doença, especialistas reforçam a importância de falar abertamente sobre saúde intestinal e de realizar exames preventivos capazes de identificar lesões antes que evoluam para quadros mais graves.
De acordo com a coloproctologista Paula Alves da Conceição, membro titular da Sociedade Brasileira de Coloproctologia, o câncer colorretal é um tumor que se desenvolve no intestino grosso (cólon) ou no reto e, na maioria das vezes, tem origem em pequenas lesões benignas chamadas pólipos, que podem levar anos para se transformar em câncer.
“A boa notícia é que esse é um dos cânceres em que temos mais oportunidade de prevenção, porque conseguimos identificar e remover essas lesões antes que elas se tornem malignas”, explica a médica.

Segundo a especialista, um dos principais obstáculos para o diagnóstico precoce ainda é cultural. “Muitas pessoas evitam falar sobre intestino, evacuação ou sangramento por vergonha. Esse silêncio acaba atrasando o diagnóstico”, afirma.
Questões relacionadas ao funcionamento intestinal ainda são vistas como constrangedoras por muitas pessoas, o que faz com que sintomas importantes sejam ignorados por longos períodos. “É curioso: falamos abertamente sobre coração, pele ou estética, mas quando o assunto é intestino ainda existe muito constrangimento. Esse preconceito faz com que pacientes convivam com sintomas por meses ou até anos antes de procurar ajuda”, observa.
Nos últimos anos, casos de figuras públicas também contribuíram para ampliar o debate sobre a doença. Entre eles estão o ator Chadwick Boseman, conhecido mundialmente por interpretar o herói do filme Pantera Negra, que faleceu após lutar contra o câncer colorretal, e a cantora Preta Gil, que tornou pública sua jornada de tratamento.
“Quando figuras públicas compartilham suas histórias, isso ajuda a quebrar o silêncio e faz com que muitas pessoas se identifiquem e busquem informação. Isso tem um impacto muito positivo na conscientização”, ressalta.
Alguns sintomas devem sempre ser investigados por um médico, como sangue nas fezes, mudança recente do hábito intestinal, dor ao evacuar, sensação de evacuação incompleta, anemia sem causa aparente e perda de peso inexplicada. Um erro comum, segundo a especialista, é atribuir automaticamente qualquer sangramento à hemorroida.
“Muita gente assume que é algo simples e vai adiando a consulta. O problema é que esse atraso pode custar um diagnóstico precoce”, alerta.
Atualmente, a recomendação é que o rastreamento da doença comece a partir dos 45 anos, mesmo em pessoas sem sintomas. O principal exame utilizado é a colonoscopia, que permite avaliar todo o intestino grosso e remover pólipos durante o próprio procedimento.
“É um exame que salva vidas, porque transforma um possível câncer futuro em prevenção”, explica a médica.
O estilo de vida também exerce forte influência no risco de desenvolvimento da doença. Dietas ricas em alimentos ultraprocessados e carnes processadas, baixa ingestão de fibras, sedentarismo, obesidade, tabagismo e consumo excessivo de álcool estão entre os fatores associados ao aumento do risco.
Por outro lado, uma alimentação equilibrada, rica em fibras, frutas e vegetais, aliada à prática regular de atividade física, pode contribuir para a redução da probabilidade de desenvolvimento do câncer.
Para o Março Azul-Marinho, a principal mensagem dos especialistas é clara: não ter vergonha de falar sobre o funcionamento do intestino e procurar avaliação médica diante de qualquer sinal diferente.
“Quando diagnosticado precocemente, o câncer colorretal tem altas chances de cura. Por isso, informação e prevenção continuam sendo nossas maiores aliadas”, conclui a coloproctologista.
Imagem: Divulgação
Jornal da Hora
